Responsabilidade histórica

O Brasil adoeceu. As cenas da Câmara dos Deputados transmitidas pela televisão são deprimentes. Os confrontos pessoais entre parlamentares envolvidos nos primeiros passos do processo de impeachement da presidente Dilma Rousseff e do julgamento do presidente da Câmara pelo Conselho de Ética só transmitem insegurança à sociedade. Nada pode parecer mais distante da responsabilidade histórica que o País exige.

A doença da intolerância precisa ser curada. O mal exemplo para a sociedade reflete na intolerância nas ruas. O cidadão está cansado e irritadiço. Precisa recuperar a esperança de que fala Ernst Bloch, embora, geralmente não tenha a mínima ideia de quem foi e do que pensava o luminoso filósofo alemão. O que importa é que a sociedade precisa vislumbrar horizontes, alternativas para o futuro. O parlamento precisa liderar, não destruir sua, cada dia mais escassa, representatividade. Não por coincidência o SFF está se transformando na autêntica fonte de poder.

É preciso que o parlamento desperte para um fato dramático. Estamos caminhando para o fascismo nas relações cotidianas. Um fascismo invisível, mesquinho, como todo o fascismo, de desdobramento imprevisível. Era esperado porque o governo erra há mais de doze anos: o pecado original estava na busca de solução do grave problema social brasileiro pela via do consumo. Parou a euforia consumista, o que fazer?

Não haverá rumo para o País com o impedimento de Dilma. Inclusive o PSDB sabe disso. Por que não admitir? Por que não uma coalisão nacional? As perspectivas econômicas são fantasmagóricas porque o País se tornou fantasmagórico: o capital industrial, motor do desenvolvimento, foi banido de cena. Burocracia sufocante, corrupção endêmica, desemprego ascendente, empresas quebrando, violência por toda parte, como desdobramento, as relações sociais se decompõem. As relações políticas, também. Tornou-se insuportável viver no Brasil.

Essa falta de horizontes já havia se manifestado em 1964 com o golpe militar. E, antes, em 1954 com o suicídio de Getúlio. Seu tronco ancestral é a proclamação da república. Não se pensou no social e na participação popular. Predominou o positivismo e a ideia da organização da sociedade, a partir das elites. Hoje, a conta dos sucessivos desmandos históricos está sendo cobrada.

Com o segundo Governo Vargas e os governos Luís Inácio Lula da Silva a organização da sociedade voltou ao centro da vida política. O projeto varguista foi desmontado com o golpe de 1964. Com a eleição de Lula, em 2003, ganhou novo sentido. A liberdade de organização se propagou pelo campo e pelas cidades. O país voltou a sonhar. O sonho acabou, mas a organização social perdura e se aprofunda. Qual é a sua dimensão na atualidade? Ninguém sabe ao certo. Como esses movimentos irão reagir se a presidente Dilma for deposta pelo impeachment? Ninguém sabe. Claro é, porém, que o impedimento da presidente não passa de um artifício, um falso consenso, que setores retrógados querem transmitir para a sociedade.

As maiores armas das tiranias são a manipulação das ilusões e as informações falsas. É fácil acusar a presidente Dilma de incompetência, de mentir, de integrar um governo corrupto, mas é difícil colaborar com um governo legitimamente eleito a encontrar alternativas para o País. Entre as duas alternativas, a sociedade – e as manifestações dos governadores, sobretudo do Nordeste, demonstram – está optando pela democracia. Não adere à falsa tese do impeachment. O STF também vem se posicionando a favor da democracia. Resta o Parlamento acordar. Em lugar de ser a fagulha a por fogo nesse circo, precisa ser construtivo e assumir suas responsabilidades históricas, isto é, promover pacificamente as transformações sociais que o Brasil teima em adiar. A sociedade, a despeito dos múltiplos impasses, tem condições de resgatar as utopias dispersas e mudar para melhor. É uma questão apenas de ter motivação. Lideranças surgirão no processo.

Francisco Viana

Autor: Francisco Viana

Jornalista, consultor de comunicação, doutor em Filosofia Política ( PUC-SP)

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